O país que mais mata transsexuais no mundo talvez não tenha muito o que se orgulhar quando o assunto é inclusão. Só em 2017 foram 445 assassinatos de pessoas LGBTs no Brasil, segundo o GGB (Grupo Gay da Bahia), e este é um número que vem aumentando nos últimos anos. Mesmo assim, essas minorias encontram aos poucos voz e espaços para criar e desenvolver seus projetos.

É o caso da Tiani Pixel, mulher trans e desenvolvedora de games no Studio Pixel Punk — fundado por ela —, que concorre este ano ao prêmio de Melhor Jogo e Melhor Jogo Brasileiro no BIG Festival (o Brazil's Independent Games Festival). Junto com ela, Fernanda Dias, também mulher trans, desenvolve a trilha sonora do único jogo brasileiro feito por duas mulheres que concorre no festival em 2018, o Unsighted.

“As nomeações da BIG me pegaram realmente de surpresa", diz Tiani, “Fiquei bem emocionada quando saíram os resultados e saber que meu jogo está concorrendo com jogos que eu admiro muito, como o Frostpunk e Dead Cells."

Unsighted é um jogo de ação/exploração que leva o jogador a explorar um mundo cyberpunk pós-apocalíptico", conta a desenvolvedora. “A sua história trata da efemeridade das coisas, colocando o jogador num mundo onde todos os personagens estão em suas últimas horas de vida — e o jogador precisa valorizar ao máximo esse tempo."

Mecanicamente, Tiani afirma que Unsighted "é uma mescla de diversas influências minhas: Zelda, Metroid, Dark Souls. Bastante exploração, porém com um sistema de combate profundo e tático." Na demo que testei enviada pela desenvolvedora, notei combates realmente desafiadores e também a opção de jogar cooperativamente com outro jogador local. Mecânicas aparentemente simples — como poder usar uma espada ou uma pistola intercaladamente — são bem exploradas e ajudam a não deixar a jogabilidade tão frustrante visto a dificuldade dos combates.

Mas se jogar Unsighted é um desafio, fazê-lo foi ainda mais. Tiani conta que teve que se preparar para poder apostar em criar um game com uma equipe tão pequena. “Estou trabalhando no jogo a cerca de seis meses, full time, fazendo tanto a arte, mecânicas e o design no geral", explicou.

Tiani estava disposta a fazer o jogo inteiro sozinha, até que conheceu Fernanda. Porém, a entrada da compositora ao time aconteceu por acaso. “Nesse tempo conheci a Fernanda Dias. Acabamos nos identificando bastante, e ela entrou pra ajudar com as músicas", conta Tiani. "A parte engraçada é que eu não fazia ideia que ela era trans ou vice-versa, até termos uma conversa sobre isso muito depois."

O BIG Festival, o maior evento de games independentes do nosso país, mostrou-se uma grande oportunidade pro seu pequeno Studio Pixel Punk. “Com a divulgação nas redes sociais e o alcance de eventos como a BIG recebi muitas oportunidades de publishers estrangeiras — então em breve vou poder divulgar alguma novidade nesse sentido", afirma a desenvolvedora.

Apesar da surpresa em ter seu jogo escolhido como finalista do BIG Festival, Tiani tem algumas ressaltas quanto à competição. “Eu gosto bastante do evento, e nunca tive problemas com relação à gênero ou preconceito. Porém, existem alguns pontos que, se corrigidos, fariam do evento ainda melhor, ao meu ver. Acredito que o evento poderia ser usado para dar mais destaque à desenvolvedores pequenos e independentes", diz.

"Eu consegui dar muita sorte de ter meu jogo escolhido, porém existem diversos outros desenvolvedores muito talentosos que não tem chance alguma nesse tipo de evento, justamente por terem jogos com equipes e financiamentos enormes concorrendo lado a lado com jogos feitos por uma pessoa só", afirma Tiani. "Acaba gerando um ciclo onde os jogos feitos por empresas já consagradas são os que costumam levar os prêmios desses eventos."

Mesmo que seu gênero não tenha trazido dificuldades dentro do BIG, Tiani sabe que ser mulher não é fácil estando no mercado de jogos. “Ser uma mulher trans sempre foi algo que me trouxe muita pressão. Eu acreditava que ninguém (seja na família ou no trabalho) iria me levar a sério se eu não fosse no mínimo muito boa no que eu fazia."

A pressão para se destacar a fez buscar espaços mais seguros para desenvolver seus projetos. “Já trabalhei em ambientes incrivelmente tóxicos, onde piadas homofóbicas, machistas, assédio moral e sexual é naturalizado, e até incentivado. Coincidentemente, nos estúdios liderados por mulheres foi onde eu tive as melhores experiências não só nesses sentidos, mas em trazer idéias inovadoras e fora da caixa. Acho que isso evidencia o quanto é necessário que se tenha mais diversidade de vivências nessa área."

A desenvolvedora diz que se inspirou em obras como Steven Universe na hora de abordar transexualidade no seu jogo, mas Tiani explica que, em Unsighted, busca tratar dos temas de forma mais sutil, afinal histórias sobre transsexuais não precisam ser apenas sobre o seu gênero.

“[A série Steven Universe] reverte papéis de gênero, coloca personagens com as mais diferentes sexualidades, e ainda sim, a trama não é sobre isso, é uma aventura épica espacial. Então, em Unsighted, esse é caminho que eu tento seguir", conta Tiani. "Sempre que vou bolar um personagem tento me distanciar o máximo possível do que já é padrão na indústria, pra mostrar que não são apenas homens cis-hétero e brancos que podem ser o herói de alguma história."

Para saber mais sobre 'Unsighted', siga o Twitter do estúdio.

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Vía vice | Ver post original