Ao acessar o site da artista e programadora Brie Code, a primeira coisa que se lê é que “videogames são chatos". A frase choca, afinal ela é a desenvolvedora que encabeçou a programação de Child of Light e também trabalhou em franquias clássicas da indústria, como Company of Heroes e Assassin’s Creed.

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“Quando digo que videogames são chatos", ela contou com exclusividade à VICE Brasil, “não quero dizer que eles são simplesmente desagradáveis, apenas que o são para algumas pessoas."

A desenvolvedora reparou que mesmo jogos de sucesso não empolgavam uma parte dos seus amigos, que se sentiam excluídos do universo dos videogames. "O tipo de game que meus amigos gostariam que existisse provavelmente seria muito sem graça sob a perspectiva de jogadores experientes. A vida já é estressante o suficiente para eles, então, o que eles esperam do entretenimento que consomem é algo que lhes proporcione relaxamento e reflexão."

Para Brie, essa limitação de formato existe por conta da pouca idade de nosso meio. "Nós ainda não exploramos todas as suas possibilidades", disse. "Na minha opinião, os games podem sim nos prover com um entendimento mais visceral de nossa própria existência do que qualquer livro ou filme."

Brie Code durante sua palestra na GDC 2017. Imagem: Divulgação.

Code explica que a maioria dos títulos lançados atualmente pela grande indústria se baseia no sistema de luta-ou-fuga, uma resposta psicológica que temos a situações de perigo e estresse. Mas não são todas as pessoas que reagem bem a esse modelo.

“Imagine que você sai para trabalhar, se estressa durante o dia, e então chega em casa à noite querendo relaxar. Se você está acostumado a essa resposta ao estresse, então provavelmente você vai querer jogar um game que complete esse ciclo biológico. A adrenalina entra no corpo perante o desafio e você é recompensado com uma dose de dopamina ao superá-lo", explicou a desenvolvedora.

"Contudo, há outro tipo de sistema, chamado tend-and-befriend, em que o corpo libera ocitocina no momento de tensão e opióides no relaxamento. A produção desse hormônio não é estimulada somente por estresse, mas a temos também quando pensamos em alguém que amamos ou assistimos a vídeos de animais fofos na internet. Para indivíduos que mais comumente têm esse tipo de resposta, um game repleto de inimigos atirando contra o jogador é menos interessante do que uma experiência acolhedora."

'BreatheLUV', já disponível para iOS. Imagem: Divulgação.

Segundo a desenvolvedora, a ativação desses sistemas biológicos não depende de um gênero ou outro de game, mas principalmente de como encaramos cada experiência.

“Eu acho estranha a forma como definimos gêneros nos videogames. É tudo muito técnico, não é como em outras mídias em que classificamos obras de acordo com emoções: drama, comédia, etc.", contou.

"Se você olhar para os jogos contemporâneos, alguns dos títulos que mais se baseiam no sistema tend-and-befriend incluem Harvest Moon, Stardew Valley e Undertale. Eu, por outro lado, encontro esse tipo de resposta em Skyrim. Jogo a dificuldade lá para baixo e me concentro na história, nas relações políticas, nos grupos."

"A ideia é que você jogue essas pequenas experiências para animar a personagem e, quem sabe, sentir-se bem também."

Nesse sentido, Code desenvolve jogos em sua empresa, a TRU LUV, com o respaldo de pessoas que não gostam de videogames. Ao lado da editora Eve Thomas, ela trabalha na primeira obra do estúdio, #SelfCare, que deve ser lançada este ano.

#SelfCare é um jogo em que você vê um quarto de dormir em perspectiva de cima para baixo. A premissa do título vem da pergunta: ‘E se você se recusasse a sair da cama para tirar um dia para si?’."

Nesse quarto dentro do jogo, há uma personagem e objetos dispostos com os quais o jogador pode interagir, explicou Brie. "Cada objeto contém um pequeno jogo meditativo. A ideia é que você jogue essas pequenas experiências para animar a personagem e, quem sabe, sentir-se bem também."

Screenshot do quarto de '#SelfCare', que deve ser lançado ainda em 2018. Imagem: Divulgação.

Uma prévia de #SelfCare foi lançada recentemente para iOS. BreatheLUV  é um app de meditação via respiração controlada que promove o autocuidado ("selfcare" no inglês) — palavra em voga no momento.

Além da atualidade, Brie também reflete e se preocupa sobre os próximos anos. Ela tem sua própria coluna no GamesIndustry.biz, onde fala frequentemente sobre o papel dos games na sociedade. Em seu último ensaio, intitulado Um Futuro em que Gostaria de Viver , a autora discute a necessidade dos jogos deixarem de flertar com a distopia para pensar em mundos melhores:

“Nossa sociedade tem muitos problemas para lidar: aquecimento global, imigração em massa, desigualdade. Ao mesmo tempo, assistimos à chegada de tecnologias que podem mudar nossas vidas, como a inteligência artificial. É uma rede complexa de fatores e ninguém pode prever nosso futuro", alertou a desenvolvedora.

"Por isso, eu escolho dizer que há um caminho positivo lá na frente. Como podemos fazer essas tecnologias servirem ao desenvolvimento da humanidade? Precisamos parar de especular e começar a traçar o futuro. Vamos parar de pensar em distopias para refletirmos sobre os mundos que queremos para nós e, efetivamente, trabalhar para concebê-los".

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Vía vice | Ver post original