Matéria originalmente publicada na VICE Canadá. 

Muita gente tende a não pensar em organizações criminais fora assistir na Netflix.

No Canadá há os Hells Angels, a Máfia de Montreal e pequenos criminosos de meio expediente, mas, no final das contas, eles estão todos ligados a seus colegas internacionais. Simplificando, o mercado do crime, como todos os outros mercados, se adaptou para a globalização. No começo pode ser difícil enfiar tudo isso na cabeça, mas é aí que entra Misha Glenny.

Dez anos atrás, Glenny, um jornalista investigativo britânico, publicou McMafia: Crime Sem Fronteiras, um livro que mapeava o mercado criminal globalizado e tentava mostrar como chegamos até aqui. O livro foi publicado em mais de 30 línguas e foi um sucesso. Agora, uma década depois, a BBC transformou o livro numa minissérie. O último episódio acabou de sair no Reino Unido e vai chegar aos EUA em 26 de fevereiro.

A série, estrelada por James Norton (Black Mirror, Happy Valley), é um drama gângster global e já está sendo comparada a outra produção da BBC, The Night Manager. Glenny, que é o produtor-executivo, estava na sala dos roteiristas para garantir que a série tivesse a mesma autenticidade do livro, já que alguns enredos são baseados em crimes reais que Glenny cobriu.

A VICE Canadá se encontrou com Glenny num café em Toronto para falar onde o país se encaixa no mercado global do crime, como é adaptar um livro de não-ficção para uma série de TV ficcionalizada, a crise dos opiáceos no Canadá e usar banheiros para contrabandear livros pela Cortina de Ferro.

VICE: Então, pra começar, você pode explicar o mercado do crime globalizado e como chegamos aqui?
Misha Glenny: Isso pode ser rastreado até dois eventos principais. O primeiro foi a introdução de medidas financeiras em 1986 por Thatcher e Reagan que facilitou a globalização – então, de repente, multinacionais podiam movimentar grandes somas de dinheiro com velocidade pelo mundo e incentivar países de mercados emergentes que antes resistiam a investimento estrangeiro para construir em sua capacidade doméstica.

Misha Glenny

Isso foi importante, mas a importância disso não ficou clara até as implicações do segundo evento, que foi o colapso do comunismo na União Soviética. A chave aqui é que o capitalismo emergiu de economias planejadas de uma forma muito aleatória, porque não havia estruturas estatais que podiam regular o capitalismo. Então sem reguladores estatais ou sistemas de justiça comercial para arbitrar disputas de negócios e coisas assim, os novos empreendedores usaram a oportunidade para criar seu próprio mecanismo de apoio, a que os sociólogos se referem como agências da lei privatizadas, mas que conhecemos mais coloquialmente como máfia. Foi exatamente isso que aconteceu no sul da Itália no meio do século 19. Do nada nesse território, esse crime organizado capitalista emergiu no Leste Europeu.

Então o que eles estão fazendo é proteger mercados, e protegem empreendedores ativos nesses mercados. O que acontece com a maioria das máfias é que eles olham para os mercados e dizem “Por que não nos envolvemos nisso e fazemos dinheiro comprando e vendendo coisas?" Eles se envolvem em mercados lícitos e ilícitos.

Eles procuram oportunidades de mercado em toda parte. Convenientemente, eles estavam nas portas da União Europeia, o maior mercado consumidor da história. Um mercado que, no final dos anos 90, em particular, era cada vez mais rico e a população gostava de gastar seu dinheiro extra transando com prostitutas, enfiando notas de 50€ no nariz e fumando cigarros sem impostos. Durante a guerra da Iugoslávia, os sindicatos criminosos, sob a névoa da guerra, usaram isso para canalizar todas as suas coisas – fosse heroína do Afeganistão, mulheres da Ucrânia, diamantes de sangue da África ou cocaína da América do Sul – para a União Europeia.

Uma screenshot de McMafia . Foto via AMC.

Foi essa experiência que fez criminosos russos, do Leste Europeu, dos Bálcãs e turcos se ligarem a pessoas do resto do mundo para atender a demanda e criar mercados para todo tipo de coisa. Houve um processo similar na Ásia ao mesmo tempo, parcialmente consequência da China e Índia se abrindo para negócios em 1986. Então todas essas coisas estavam se juntando ao mesmo tempo, o Afeganistão estava produzindo grandes quantidades de heroína, todo o estado de Colúmbia foi subvertido por cartéis, e tudo isso se juntou nos anos 1990.

O crime organizado foi a indústria que melhor usou os métodos da globalização: como você podia lavar dinheiro através de todos esses novos caminhos financeiros que estavam se abrindo pelo mundo. Se você estava em lugares como a antiga União Soviética, partes da África ou América do Sul, então você tinha que ter alguns oficiais do governo no seu bolso. Como os lucros que você faz nessa indústria são vastos, você pode basicamente comprar primeiros-ministros e presidentes se quiser.

Onde o Canadá entra no mercado do crime mundial?
Por um tempo e, claro, isso está mudando agora por causa da legalização da maconha recreativa, o Canadá foi um centro incrivelmente importante, e continuará sendo para a produção e exportação de maconha para os EUA. Isso continua em CB, mas se espalha por todo o país. Vancouver é importante porque é um porto e as pessoas descobriram que movimentar pela fronteira do Canadá para os EUA é mais fácil que tentar entrar direto por portos americanos. E não é só a maconha que está sendo transportada, mas cocaína entrava no Canadá para o sul, parcialmente com os Hells Angels.

O que estamos começando a ver é uma mudança lenta, mas estável, da produção de narcóticos orgânicos, de áreas tradicionais como o Afeganistão, para áreas de consumo. Então Amsterdã, os Bálcãs, Israel e até certa extensão o Reino Unido, mas também Canadá e Japão, se tornaram zonas de produção de metanfetaminas para MDMA e toda uma variedade de drogas sintéticas. Mas não o fentanil, que, pelo que sabemos, é produzido exclusivamente na China.

No Canadá também temos um mercado bastante movimentado de lavagem de dinheiro e troca de moedas para propósitos de lavagem. De maneira interessante, Vancouver está começando a se tornar o centro real agora porque você pode criar empresas no Canadá e fora do Canadá cujos beneficiários continuam desconhecidos para o estado. Então acho que as 100 maiores propriedades em Vancouver em termos de valor de mercado [quase metade delas] são de companhias anônimas. Isso também acontece em Londres e é por isso que Londres se tornou um centro de lavagem de dinheiro, você pode comprar propriedades sempre revelar quem você é.

Basicamente, você tem três áreas no Canadá que são importantes. Primeiro, você tem a zona de consumo – o Canadá é um alvo para bens e serviços do crime transnacional. Aí você tem a zona de produção que está criando cada vez mais narcóticos sintéticos e está usando a discrepância de preço entre EUA e Canadá para toda uma variedade de bens. Aí você tem a indústria da facilitação, a lavagem de dinheiro, os advogados, pessoas facilitando grandes operações, e assim por diante. O país, como muitos países ocidentais, é um lugar bastante movimentado em termos de crime organizado, mas tem esse aspecto único de ser visto pelos criminosos como um ponto de entrada mais fácil para os EUA.

Esse paralelo 49, a fronteira com os EUA, é muito fácil de penetrar. É um país grande e, sabe, países grandes oferecem oportunidades. O lugar é escassamente povoado e difícil de policiar.

Como a guerra às drogas afeta essa indústria?
O maior problema, tanto do ponto de vista econômico como moral, é que a guerra às drogas leva a guerras civis não declaradas em países de produção e distribuição – Brasil, México, Afeganistão. O Brasil por exemplo, onde 62 mil pessoas foram mortas ano passado e mais de 50% dessas mortes estavam diretamente ligadas às consequências da guerra às drogas.

São centenas de milhares de mortos todo ano nas Américas do Sul e Central por causa da demanda de países como EUA, Canadá e da Europa na guerra às drogas. Você está começando a ver mortes no Ocidente também com a crise dos opiáceos, mas é algo muito menor comparando os números. Quando você trabalha nesses países e vê as consequências dessa guerra, que a grande maioria dos mortos são homens negros desesperados e desempregados entre 16 e 30 anos, você começa a ver como essa estratégia é ultrajante e precisa mudar, mas está mudando muito lentamente.

Sendo um eleitor comum dos EUA, você não vê essas coisas a menos que more em Miami ou outro lugar assim. Acho que a guerra às drogas já se mostrou um fracasso desde os anos 1920, e fico feliz em ver que finalmente estamos começando a ver uma revisão disso tudo, mas ainda temos um longo caminho pela frente.

Você mencionou a crise dos opiáceos. Portugal descriminalizou todas as drogas e o Canadá está discutindo como lidar com essa crise. Uma mudança de política como essa tem um impacto no mercado globalizado do crime?
Com Portugal você teve uma redução do crime, porque as pessoas têm acesso mais fácil e barato a drogas recreativas e porque os preços do mercado caíram, então as pessoas não precisam mais roubar lojas ou algo assim para poderem usar drogas. Mas o mais fascinante é que vimos uma redução do consumo de drogas.

O problema com a descriminalização é que o mercado continua criminalizado, então como você pode permitir que as pessoas tenham acesso a um mercado que no geral é criminoso? É um círculo muito difícil de lidar, e um problema com que a Holanda vem lidando há décadas e nunca teve muito sucesso. É por isso que o mundo está olhando para os EUA e Canadá com tanto escrutínio agora. Vimos isso em Portugal e Holanda, vimos na República Tcheca – onde a maconha é descriminalizada – e na Suíça com resultados muito positivos.

No geral, isso parece estar funcionando porque há uma mudança significativa em andamento em termos de distribuição de narcóticos – a dark web. No Reino Unido isso é enorme, a dark web é enorme, especialmente em grandes cidades com uma grande população de estudantes que entram nesses sites. A qualidade dos narcóticos está aumentando porque há um sistema de avaliação e os hábitos estão mudando. É através desses sites que você vê esses hábitos passando de narcóticos orgânicos para narcóticos sintéticos. A questão é que esse é um mercado não regulamentado e você pode infiltrar materiais como o fentanil.

E particularmente por causa da mudança na distribuição pela dark web, temos uma crise social como nunca vimos em termos de drogas por toda parte, e no mundo ocidental nunca tínhamos vistos tantas mortes.

McMafia  saiu dez anos atrás. Quanto mudou nesse mundo desde que o livro foi originalmente publicado?
Agora há duas trilhas paralelas de criminalidade: você tem o crime organizado tradicional lidando com serviços, produtos e proteção – coisas assim – e tem o cibercrime e um espaço entre eles. O espaço existe porque, no crime organizado tradicional, para entrar no jogo, você precisa convencer alguém de sua capacidade para violência ou ameaça de violência e, no cibercrime você não precisa disso – você pode estar em casa atacando alguém a 10 mil quilômetros de distância.

O que vimos nos últimos cinco anos é a emergência de jovens nos sindicatos de crime organizado tradicionais que são nativos digitais. Então eles são mais acessíveis em usar e explorar a internet para tornar seus negócios mais eficientes e se envolver em atividades estritamente cibercriminais, então nos sindicatos de crime tradicionais agora você tem script kiddies, operações oportunistas e uma estrutura de célula muito mais organizadas. Quando você tem alguém coordenando a coisa toda, você tem o programador do malware, alguém responsável por distribuir o malware, você precisa de um bom engenheiro social para operações de phishing, precisa de mulas, lavadores de dinheiro, então você tem uma operação muito mais estruturada e institucionalizada. Em consequência disso, o espaço entre esses dois tipos de crime está diminuindo.

O fato de você ter acabado cobrindo tanto sobre contrabando é meio poético, né?
Você acha? [Risos]

Sim, me corrija se eu estiver errado, mas no passado você contrabandeava livros pela Cortina de Ferro, certo?
Eu fazia isso eu mesmo!

Eu era parte de um grupo de oposição democrático do Leste Europeu. Éramos parte de uma rede de esquerda envolvida nessa atividade. Por exemplo, indo de Viena para Budapeste você tinha uma variedade de transportes, algumas estradas de ferro austríacas, algumas romenas onde você tinha acesso prévio. E eu descobri que em vagões romenos você podia desparafusar o painel dos banheiros. E o que eu fazia era desparafusar o painel, colocar documentos ali e parafusar de novo.

Passando pela fronteira, eu voltava para o banheiro, colocava os documentos na minha bagagem e pronto. Fiz isso principalmente num vagão para a Checoslováquia, para Praga. Eu também levava coisas de volta.

Um screenshot de McMafia . Foto via AMC.

Eu tinha acabado de sair da adolescência e era uma coisa muito idealista. Aprendi muito. Os documentos eram sobre debates políticos, revistas e assim por diante, porque o estado controlava a mídia, mas na Hungria eu tinha acesso a máquinas de xerox e podia copiar e distribuir material em Budapeste.

Todo esse tempo que estamos aqui e eu não te perguntei ainda sobre a série...
É bom perguntar! [Risos]

Como foi o processo?
O livro, como discutimos, foi escrito muitos anos atrás, e teve um impacto real entre forças da lei, entre pessoas envolvidas com o crime organizado, legisladores, pessoas fazendo planos de segurança de longo prazo, mas isso tudo é limitado. Fiz bem em se tratando do livro, ele foi vendido em 30 línguas, mas sempre restrito a algumas centenas de milhares de cópias vendidas por país. O impacto que estamos tendo com a série é impressionante.

A série é mencionada em jornais e na TV o tempo todo. Temos algo sendo chamado de “lei MacMafia" agora, que são pedidos de explicação de riquezas, onde o governo disse que pessoas com renda maior que £50 mil vão ter que explicar de onde ela vem se são estrangeiros morando em Londres. Temos páginas de imobiliárias explicando casas McMafia. Matérias sobre os beneficiários de empresas anônimas. Tem sido algo enorme no Reino Unido e sinto que não há um programa de TV com um impacto desses há anos. Fico particularmente feliz que essas questões sobre crime organizado e lavagem de dinheiro estão agora no mainstream, e você só pode fazer isso através da televisão.

Por que esse nome, por que McMafia?
Chamei o livro de McMafia por causa da associação com o McDonald's e sua força global. Quando eu estava entrevistando Mark Galeotti, que é um especialista russo, no começo da pesquisa, ele disse que a máfia chechena em Moscou tinha franquiado seu nome para grupos de toda a Rússia poderem se chamar de máfia chechena, sendo chechenos ou não. Eles tinham que pagar tributos e tinham que manter a crueldade pela qual os chechenos eram famosos em Moscou. Ele disse que era uma McMafia, e nisso entrava minha ideia da globalização e a ideia dele de franquia de crime, então achei que era o título certo.

Mas muita gente na Escócia ficou desapontada. Eles achavam que o livro era sobre a máfia escocesa.

A entrevista foi editada para maior clareza.

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Vía vice | Ver post original